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“Dia 20 de outubro foi o Dia Nacional da Filantropia e, entre tantas mensagens de celebração, fiquei com uma pergunta ecoando em mim: o que a gente está celebrando quando fala em doar?
“No último Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais do IDIS, Conceição Evaristo, um daqueles seres que nos fazem gratos por respirarmos o mesmo ar e estarmos vivendo o mesmo tempo, abriu o encontro com uma provocação fundamental: ela nos lembrou que o que permite a fartura de uns significa a carência de outros. Que precisamos “pensar e praticar a filantropia como um ato de justiça, como uma espécie de reparação, uma busca de promoção da justiça numa sociedade em que a justiça é tão desigual”.
“Ela nos questionou: “quem fala na filantropia? Quem responde? Como responde?”. Em resumo, Conceição nos convidou a pensar a filantropia não apenas como doação, que coloca o sujeito que recebe num lugar de passividade e carência crônica, mas como um gesto de repartição e reparação, o que leva a filantropia a um lugar muito mais próximo da busca por justiça social. Quem reparte reconhece que algo foi concentrado e que devolver é, antes de tudo, um ato de justiça.
“(Se você não assistiu, recomendo fortemente que procure no Youtube a gravação do Fórum e veja e reveja infinitas vezes a fala dela ali pelo minuto 27).
“Sou uma leitora contumaz de literatura brasileira e nunca esqueço as emoções que os contos de Olhos d’água, o primeiro livro que li da Conceição, me causaram. Nele, em Ponciá Vicêncio, Insubmissas Lágrimas de Mulheres, a gente aprende que a escrevivência, termo cunhado por ela, nasce de quem viveu a falta e não aceita que ela seja tratada como destino. Conceição já disse em diferentes ocasiões que sua escrita “não é para ninar a casa-grande, mas para despertá-la de seus sonos injustos”. Penso nisso quando olho para a filantropia: ela também pode ninar ou pode despertar.
“Repartir vai muito além de transferir bens e recursos. É repartir o poder de dizer qual é o problema, de definir prioridades, de decidir como o recurso será usado e de contar a própria história. Uma filantropia que entrega recursos, mas mantém todas as decisões nas mesmas mãos, reparte pouco. (…)”