A Filantropia Estratégica no Divã, Sessão 3 - Escola Aberta do 3º Setor

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A Filantropia Estratégica chega sete minutos atrasada, o que nunca aconteceu, e senta-se pesadamente, sem esperar por um convite. “Estive pensando”, diz ela. “Preciso perguntar uma coisa e preciso de uma resposta direta, nada dessa coisa de beber kombucha e ficar fazendo pausinhas. Tudo bem?”. Sem esperar por uma resposta ou ao menos um aceno de cabeça, continua: “O que está acontecendo? Por que tantas críticas à eficiência? O que essas pessoas querem, voltar à idade da pedra da filantropia, quando doar se limitava a ajudar?”…..“Nobre”, diz ele com desdém, “mas não provoca uma mudança na situação, não vai na raiz do problema”. O desabafo continua. “Estou tão irritado com toda essa resistência a todas as coisas grandiosas que construí nas últimas décadas.”

A raiva é sempre um bom começo, reflete a terapeuta sentada em seu canto, esperando que a energia se dissipe. “Por que você acha que o problema das pessoas é contra a ideia de eficiência?”, pergunta a terapeuta.

“Lá vamos nós…”, ele murmura irritado. “Porque estou sendo criticado por ser autoritário, por usar o poder para moldar resultados e por não ouvir as pessoas nas comunidades onde o problema está. É injusto! Você sabe quanto tempo leva um processo colaborativo? Eu nunca conseguiria cumprir com eficiência o cronograma que estabeleci para mim mesmo se tivesse que me reunir com grupos e ter conversas intermináveis; às vezes eles até fazem… encontros residenciais de três dias! O mundo está em frangalhos, o clima está mudando rapidamente nossas vidas, há doenças se espalhando, pobreza extrema e direitos sendo violados em todos os lugares. Não há tempo para sentar e passar um dia inteiro com bobagens do tipo ‘como você está, o que te traz aqui’”, diz ele, inclinando a cabeça para o lado em tom de zombaria.

“Eu entendo.” Diz a terapeuta: “É um grande paradoxo. Isso nos coloca na posição de acreditar que realmente precisamos nos apressar, que a urgência da transformação, por si só, justifica o custo da pressa. Isso torna a pressa necessária, até mesmo imperativa.” Ela sustenta enquanto ele se acomoda na cadeira, sentindo-se compreendido. “Por outro lado, se nos apressarmos na transformação que almejamos alcançar, não estaremos reproduzindo as dinâmicas sensíveis e sutis de poder e violência que, de muitas maneiras, ajudam a manter o mundo que queremos transformar? O tempo que realmente leva para que uma mudança verdadeira aconteça não tem algo a nos ensinar sobre o ritmo dos processos e da vida de antes de nos tornarmos viciados na ideia de eficiência e produtividade?”.

Trecho de artigo produzido por Joana Ribeiro Mortari, ativista pela cultura de doação e cofundadora do Movimento por uma Cultura de Doação, e Michelle Prazeres, jornalista, professora, pesquisadora, fundadora do Instituto Desacelera e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação. Para ler na íntegra, clique aqui.