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“A ideia inicial desse texto surgiu em uma atividade que participei. Uma parceira, ao se referir às contradições do ecossistema filantrópico, trouxe um canto indígena: “Quem deu esse nó não soube dar: esse nó tá dado, eu desato já”. A imagem do nó, com sua força de provocação, nos convida a olhar para as relações que organizam o financiamento das lutas populares e a reconhecer que aquilo que parece dado pode ser desfeito e reconstruído.
“Quando olhamos para a forma como os recursos chegam aos movimentos sociais e organizações de base (o que aqui vou chamar de organizações populares), encontramos um nó que se manifesta na distância entre o que essas organizações precisam para sustentar suas lutas e aquilo que o financiamento está disposto a apoiar.
“Sustentar a democracia e a luta por direitos exige olhar sensível para as condições em que os recursos chegam às organizações populares. Mais do que financiar atividades, fazer isso exige olhar para as condições concretas que tornam a atuação das organizações populares possível. Na escuta dessas organizações, uma questão se repete: há custos necessários para fortalecer suas lutas que não encontram lugar nas rubricas dos projetos. Manter um espaço aberto, remunerar quem trabalha e garantir deslocamentos são condições básicas de atuação. Ainda assim, precisam justificar continuamente para que sejam reconhecidas como legítimas.
“Essa distância revela um problema na própria lógica de projetos. O financiamento se organiza em torno de atividades, tabelas, prazos, metas e entregas. Para acessar recursos, as organizações precisam repartir ou adequar sua atuação em propostas que caibam nas prioridades de quem financia, deixando de fora parte do trabalho que sustenta sua existência.(…)”