17.10

2013

Organizações da sociedade civil precisam aprender a requisitar doações, apontam especialistas

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Um dos grandes problemas do setor social privado é obter recursos para seus projetos. Muitas vezes, isso se deve a uma cultura de doação pouco disseminada – mas o problema também pode ser motivado pela ausência da cultura do ato de pedir. Essa foi uma das constatações de um grupo de especialistas internacionais reunidos na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, no início de outubro. O encontro foi promovido pela Worldwide Initiatives for Grantmaker Support (Wings), rede internacional criada para promover e fortalecer o desenvolvimento da filantropia no mundo, e da qual o IDIS é associado.

Alguns doadores dizem que não estão recebendo pedidos; eles até fazem reuniões com organizações, mas elas não pedem recursos, não sabem quanto querem, afirmou Tina Thiart, coordenadora do Southern African Community Grantmakers Leadership Forum (SACGLF), organização que reúne doadores sul-africanos.

Basak Ersen, secretário-geral da Fundação Terceiro Setor da Turquia (Tüsev), também percebe essa ausência da cultura do pedido – e observou que, às vezes, o pedido perde força por ruídos de comunicação entre as organizações da sociedade civil (OSCs) e os doadores. “É importante falar a mesma língua: tem de mostrar bons resultados, bons exemplos, pois o setor privado é muito voltado para resultados.”

O problema existe também no Brasil, onde se fala muito sobre a insuficiência de doadores e pouco sobre as estratégias de como demandar recursos. Rodrigo Alvarez, diretor do IDIS, lembrou o caso da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), cuja recente campanha nacional já conseguiu arrecadar mais de R$ 20 milhões, colocando em xeque a ideia de que brasileiros não contribuem. “A cultura de doação se constrói com a cultura do pedido”, destacou.

Unindo as partes
Um modo de encurtar a distância entre doadores e receptores é promover encontros entre eles. Essa é uma das táticas da Tüsev na Turquia. Ersen contou que a entidade costuma organizar o que ele chama de giving circles, reuniões para estimular o contato entre ONGs e potenciais doadores.

Não é só o eventual fosso entre as partes que emperra a filantropia. O ambiente legislativo influencia – e isso foi abordado no primeiro dia do evento. O presidente do IDIS, Marcos Kisil, defendeu mudanças tributárias para incentivar a criação de fundos patrimoniais (endowments) no País. “Só que o governo quer arrecadar o máximo possível, precisa delobby para mudar”, afirmou.

A diretora-executiva do IDIS, Paula Fabiani, frisou que existem estudos que comprovam a relação entre tributação e doações. “De acordo com sua lógica, o sistema promove ou desincentiva a filantropia”. Ersen apontou que o setor social turco também enfrenta problemas devido à legislação.

Maria Chertok questionou a importância da política de impostos no desenvolvimento do Terceiro Setor. Segundo ela, a CAF Rússia conseguiu alterações tributárias no país, mas o impacto ficou aquém do esperado. “Quem doa não é levado por esse tipo de incentivo”, declarou. Ainda assim, avaliou, a luta por diminuir a carga sobre as entidades teve importância simbólica, ao mostrar que o governo ouviu e acatou uma demanda da sociedade.

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