07.12

2018

Em fase de constituição, Instituto Ibirapitanga chega ao GIFE

Postado por

Apoiar Organizações da Sociedade Civil (OSCs) em ações que contribuam para a garantia de liberdades e para o aprofundamento da democracia no Brasil é a missão do Instituto Ibirapitanga, recém associado ao GIFE.

O Instituto foi criado em 2017 pelo cineasta Walter Salles. André Degenszajn, diretor presidente do Ibirapitanga, conta que depois de decidir criar a organização, Salles fez pesquisas e mapeamentos de outras fundações e instituições variadas.

O fundo patrimonial a partir do qual o Instituto foi criado, define o orçamento disponível para as ações. Criado como um grantmaker, ou seja, uma instituição doadora, o Instituto tem como objetivo investir em projetos de terceiros para promover e garantir direitos e fortalecer a democracia no Brasil. “Uma visão fundante do Ibirapitanga é que uma democracia forte, capaz de garantir direitos e liberdades, depende de instituições fortes, com autonomia e capacidade de atuação”, explica André.

O diretor conta que a constituição das áreas de atuação da organização foi um processo interessante que foi na contramão do que geralmente acontece. A vontade de Walter Salles era que o Instituto encontrasse seu próprio caminho durante o processo de constituição e não que as áreas fossem um espelhamento de seus desejos. Por isso, a equipe do Ibirapitanga realizou ciclos de discussão a partir da metade de 2017 para definir quais seriam os projetos e ações prioritárias para receber apoio.

“É evidente que [as áreas temáticas] partem de olhares dele. O nosso primeiro ciclo de discussão foi um trabalho interno dele com as pessoas que já estavam no início da construção do Instituto. Foi um processo de imersão e conversas, partindo de interesses e inquietações que ele trazia, mas também com uma leitura da equipe sobre prioridades e temas que produziriam um campo mais fértil de atuação.”

Além disso, André ressalta que todo o processo de pesquisa confirmou e validou as áreas escolhidas: alimentação e equidade racial. “Poderíamos chegar depois de alguns meses de investigação e falar: ‘achamos que não é o caso de ter um programa dedicado a esse tema’. Na minha opinião, [a validação] era mais importante no caso da temática alimentação, pois tínhamos menos clareza do que poderia ser uma atuação nessa área. Equidade racial tinha uma afirmação muito mais clara desde o início.”

Áreas temáticas

A soma das visões do fundador com pesquisas e levantamentos do campo das OSCs e a percepção da equipe do Ibirapitanga resultaram as duas áreas de atuação do Instituto: alimentação e equidade racial. A ideia é que as duas tenham, a grosso modo, a mesma quantidade de recursos alocados.

Em equidade racial, André ressalta que a organização já está há quase um ano em um processo de conversa com atores do campo, pesquisadores e professores com o objetivo de iniciar a construção de uma base de relacionamento e um espaço de legitimidade do Instituto para modelar as prioridades e oportunidades de atuação.

A principal ação já realizada nessa área foi o apoio ao Fundo Baobá em homenagem à vereadora Marielle Franco. Criado por Fundação Ford, Open Society Foundation e Instituto Ibirapitanga, o fundo tem como objetivo incentivar e fortalecer o protagonismo político de mulheres negras. Apesar de o Instituto ter realizado doações pontuais ao longo desse ano, André ressalta que ainda se trata de uma estratégia em constituição. Segundo o diretor, o objetivo da organização é operar em 2019 com mais propriedade.

“Se o Brasil não lidar com a questão da equidade racial, não resolvê-la e não mudar de patamar, não vamos avançar, não vamos ter uma democracia de verdade. A educação também não vai avançar e a desigualdade não reduzirá. Desde o começo tínhamos uma leitura muito clara e afirmativa de que esse seria um papel importante para o Instituto”, defende André.

De outro lado está a área de alimentação. André ressalta que o objetivo da organização para com o tema é se situar na relação entre alimentação e as dimensões ambiental, social e da saúde. “Há organizações e pessoas com atuações consolidadas em uma variedade de campos que se conectam ao tema da alimentação como segurança alimentar, direito à alimentação, relação entre saúde e alimentação, nutrição e até a questão da biodiversidade a partir de culturas tradicionais, mas poucas instituições com uma visão para múltiplas áreas. A intenção do Ibirapitanga é trabalhar com sistemas alimentares.”

“Hoje, a alimentação é a maior causa de mortes ‘evitáveis’, relacionada diretamente com doenças não transmissíveis. Mas também está ligada à questão ambiental: a produção de alimentos é o principal vetor de contribuição para mudanças climáticas. Se nós queremos incidir sobre isso, precisamos pensar sobre a base da agricultura e pecuária. Da mesma forma, o fortalecimento de culturas tradicionais depende de um olhar sobre alimentação porque muitas delas são comunidades que têm como base a agricultura, seja de subsistência ou como fonte de renda. Então, o nosso objetivo é olhar para esse campo a partir desse conjunto de questões e apoiar organizações e iniciativas dessas diversas áreas.”

Para definir cinco áreas de trabalho dentro do tema alimentação, André conta que foi realizado um mapeamento do campo com conversas e imersões com as principais organizações e pesquisadores da área em nível nacional. Ao fim, ficou decidido que a atuação será segmentada no apoio a projetos em: 1. Redução no consumo de produtos ultraprocessados; 2. Ampliação da alimentação livre de agrotóxicos; 3. Aumento da participação da agroecologia na economia brasileira; 4. Acesso amplo e equitativo a alimentos saudáveis e 5. Maior conhecimento, preservação e consumo de alimentos da sociobiodiversidade brasileira.

A atuação neste tema tem três objetivos principais: fortalecimento e articulação entre organizações que fazem parte do ecossistema alimentar, fomento a pesquisa de excelência e divulgação científica e influência para mudança regulatória e legislativa (advocacy).

Associação ao GIFE

Como ex-secretário geral do GIFE, André argumenta que a associação do Ibirapitanga era clara a partir do momento que o Instituto estivesse minimamente estruturado. Mas, além desse fator, ele destaca outros como a importância de fazer parte de uma comunidade e o próprio fortalecimento do GIFE.

“O nosso trabalho, em grande medida, depende da construção de parcerias, de identificar o que outros estão fazendo, de entender quais movimentos estão acontecendo e acho que o papel de uma fundação, para além das áreas em que ela escolheu atuar, tem a ver com fortalecer esse campo fundacional. Eu acredito que as organizações precisam ter essa leitura de que ter um campo filantrópico mais forte é importante para o fortalecimento da sociedade civil como um todo, para além das causas específicas.”

Na opinião do diretor, um espaço onde as organizações possam discutir prioridades, se alinhar e debater leituras de contexto é fundamental, sobretudo com a recente alteração governamental brasileira.

“O GIFE é um espaço por excelência para isso. Existem questões que não serão resolvidas por uma instituição individualmente e é preciso ter associações fortes para atuar nesses momentos. A associação ao GIFE tem a ver com duas vias: o quanto nós nos beneficiamos em estar no GIFE com acesso ao conhecimento, à rede e a espaços de discussão e compartilhamento e o quanto nós investimos no fortalecimento do próprio GIFE como associação do campo do investimento social privado e da filantropia,” ressalta.

Fonte: GIFE

Compartilhe:
Share on Facebook
Facebook
Tweet about this on Twitter
Twitter