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2013

Crise de 2008 trouxe a necessidade de um novo contrato social para negócios, defende especialista

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“A empresa só é bem sucedida se a sociedade for bem sucedida”. Foi assim que John Low, diretor-executivo da Charities Aid Foundation (CAF), justificou a mudança de atitude das empresas em relação ao seu entorno social provocada, entre outras coisas, pela crise econômica de 2008. O diretor da CAF, organização britânica voltada para o desenvolvimento da filantropia, participou de um café da manhã promovido pelo IDIS com representantes do investimento social corporativo na sede do escritório paulistano Demarest Advogados, no dia 23 de outubro.

O evento foi realizado como meio de fomentar uma discussão acerca do futuro do investimento social corporativo, que tem passado por grandes mudanças nos últimos anos. “O IDIS, que ajudou a criar grande parte dos institutos e fundações empresariais no início dos anos 2000 no Brasil, quer continuar contribuindo com as empresas nesse novo momento da relação entre o negócio e suas ações de investimento social”, afirma Rodrigo Alvarez, diretor do IDIS responsável pelos serviços de consultoria e organizador do evento.

Essa mudança nas corporações se deve àquilo que Low considera uma consequência inesperada e positiva da turbulência iniciada em 2008: as empresas, em geral, passaram a discutir os valores sociais ligados a seus negócios. “Segundo uma pesquisa, líderes empresariais consideraram que, em 2008, a crise também foi uma crise de valores, e eu não me lembro de uma situação como essa ter sido discutida antes dessa forma”, afirmou Low, que trabalhou por muitos anos no setor privado lucrativo e já vivenciou várias crises econômicas.

Tudo isso, acredita ele, somado ao debate da sustentabilidade, levou à discussão sobre a necessidade de um “novo contrato social para os negócios”, em que empresas se pautam por valores compartilhados, descritos como “conceitos, políticas e práticas executivas que façam avançar condições sociais e econômicas na sociedade em que estão”. Para Low, essa é uma ideia nova, voltada para o futuro e para a criação de inovações.

A adoção dessa agenda, no entanto, representa um desafio para as empresas, como lembrou Juliana Nobre, gerente de projetos de cidadania corporativa da IBM. Enquanto esses valores compartilhados estão ligados a uma noção mais estendida de tempo, as empresas trabalham com uma lógica muito mais voltada para resultados imediatos, o que cria dificuldades para que esses princípios se tornem valores reais das corporações. “A questão do longo prazo é muito importante para isso”, afirmou ela.

Apesar da dificuldade, Low disse que a responsabilidade corporativa está ganhando densidade nas empresas, pois elas estão cada vez mais apresentando soluções para mitigar riscos e atacar problemas que prejudiquem os negócios. E muitas dessas iniciativas estão ligadas a uma ação voltada para a comunidade em que elas estão instaladas. “Uma pesquisa apontou que 83% dos líderes empresariais entrevistados consideram que é preciso fazer mais investimento comunitário”, disse Low.

Essa filosofia levou, por exemplo, à mudança de foco do investimento social do Instituto Votorantim, como relatou no encontro o gerente da organização, Rafael Gioielli. “A empresa passou de um foco em juventude para atuar, nos últimos anos, com o desenvolvimento das comunidades onde temos negócio”. “Como somos  do segmento extrativista, com alto impacto na comunidade,  precisamos construir um legado positivo para ela”, explicou Gioielli.

O representante do Instituo Votorantim concluiu que o investimento social corporativo tem impacto positivo também nos negócios. “A comunidade mais desenvolvida oferece profissionais locais mais bem preparados.” Ele ainda ditou uma espécie de fórmula para a ação corporativa: “O investimento social privado não é apenas o que socialmente ajuda aquele negócio, mas é também entender como o negócio pode alavancar a comunidade”.

Reconhecimento do investimento social corporativo
O diretor-executivo da CAF também chamou a atenção para o fato de que o investimento social corporativo não foi profundamente afetado pela crise, ainda que os lucros das empresas tenham sido seriamente atingidos pela turbulência, especialmente na Europa. “Isso é surpreendente, pois antes esse era o primeiro gasto a ser cortado pelas corporações”, constata Low. Para ele, isso significa que o investimento social corporativo agora faz parte do DNA das empresas.

Gioielli mostrou na prática a relação cada vez mais umbilical entre o mundo corporativo  e a ação social ao compartilhar as experiências do Instituto Votorantim. Criado em 2002 para sistematizar o investimento social privado dos acionistas, a organização responde diretamente à holding do Grupo Votorantim. “O Instituto foi se transformando em órgão do ecossistema da empresa”, disse Gioielli.

Low acredita que esse tipo de ação não é mais um elemento marginal no interior das corporações. Segundo ele, a preocupação com o investimento social corporativo tem partido cada vez mais da alta direção das empresas. “Antes era a mulher do executivo, ou o departamento de marketing, mas agora as empresas sabem que os negócios só serão lucrativos e seguros se considerarem as necessidades de seus colaboradores e da comunidade”. Ele apontou o engajamento das lideranças empresariais como a grande tendência do investimento social corporativo nos últimos tempos.

A ação social das empresas, por sinal, tem dado resultados também entre os funcionários. Juliana, por exemplo, falou de dois programas da IBM que reúnem periodicamente pequenos grupos de trabalhadores para criarem, juntos, soluções inovadoras para organizações da sociedade civil ou para cidades. “O trabalho colaborativo entre pessoas com habilidades diferentes ajuda a desenvolver novas capacidades nos envolvidos”, explica ela.

Low também comentou sobre os efeitos que a ação social corporativa gera nos funcionários. “Eles ficam mais satisfeitos por estarem trabalhando em uma empresa que tem impacto na comunidade”, disse o diretor-executivo da CAF.

Fonte: IDIS

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