11.12

2015

O Brasil e a solidariedade em tempos de crise

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Momentos de crise fazem as pessoas refletirem sobre sua própria condição social e seus valores. Os brasileiros, por exemplo, costumam se identificar com uma gente solícita, generosa e bondosa. Expressões como “pode entrar que a casa é sua” e “sempre cabe mais um” mimetizam esse pretenso espírito solidário, que sempre reaparece em situações de calamidade pública. São famosas as imagens de toneladas e toneladas de alimentos e roupas doados por e para gente anônima.

A quantificação desses gestos, no entanto, mostra uma realidade um pouco diferente. Segundo o World Giving Index – WGI (Índice Mundial da Solidariedade), são pelo menos 33 milhões os brasileiros que doam quantias em dinheiro para organizações da sociedade civil pelo menos uma vez por ano

Parece muito, mas é pouco comparado com a cultura de doação que existe ao redor do mundo. Apesar da fama de generosidade do brasileiro, a pesquisa Retrato da Doação no Brasil, de fevereiro de 2014, promovida pelo IDIS em parceria com a Ipsos Public Affairs demonstrou que o hábito de doar não faz parte da cultura do país. De cada 100 brasileiros, 30 doam para pedintes de rua, o mesmo número que disse doar para igrejas (não é possível saber, pela pesquisa, se são os mesmos ou outros, por isso os números não podem ser somados). Da mesma forma, de cada 100, apenas 14 doa para ONGs.

Os números nos levam a concluir que o brasileiro, ainda que bastante solidário, não age de forma estratégica, não doa como parte de um hábito cultural, e sim em razão de pedidos mais pontuais e imediatos.

E em um momento de crise econômica, como o nosso, os estímulos para a doação imediata voltam a se repetir: maior desemprego e inflação, redução geral da renda e aumento da pobreza. O resultado é mais pessoas precisando receber doação, e uma propensão maior do indivíduo para doar ao pedido de última hora.

Como doação, entendemos a transferência para alguém de um dom, uma dádiva, um bem, sem esperar nada em troca a não ser o benefício para a sociedade.

Há diversos estudos que comprovam que doar faz bem não somente para quem recebe, mas também para quem dá. Ajudar o outro estimula o brain reward system, um sistema de recompensas que é ativado no cérebro em situações de prazer como comer chocolate, e em situações de conforto emocional como o apego social em vínculos de longo prazo.

Doar diminui o estresse, melhora o funcionamento do sistema nervoso e do coração e aumenta a expectativa de vida. Já o altruísmo traz realização e satisfação de algo feito por prazer e não por obrigação; em tempos de crise, pode ser, inclusive, um bom instrumento para conforto mental.

Sim, há uma solidariedade informal circulando, de forma pontual. Mas é tempo de transformá-la em algo estratégico, contínuo. É tempo de aderir ao Dia de Doar, uma campanha que promove a cultura de doação e que será celebrada dia 01 de dezembro este ano.

O Dia de Doar surgiu em 2012 nos Estados Unidos e teve sua primeira edição no Brasil em 2013, sendo atualmente organizada pelo Movimento por uma Cultura de Doação, uma coalização de organizações e indivíduos que promovem ações de incentivo à filantropia.

No primeiro ano da realização do Dia de Doar no Brasil, por falta de divulgação, pouquíssima mobilização ocorreu. Em 2014, já às vésperas da crise econômica, a campanha deu um salto, e 400 parceiros em todo o país se juntaram a ela, dentre indivíduos, empresas e organizações da sociedade civil (ONGs), alcançando quase 20 milhões de pessoas no país.

Este ano, com país vivendo sua pior situação econômica em desde 2002, o Dia de Doar caminha para ser ainda maior, mais que dobrando de tamanho. Organizações, pequenas e grandes empresas, indivíduos e até órgãos públicos já aderiram ao Dia de Doar, que estimula que cada um faça seu ato de doação no dia 01 de dezembro. Aos interessados em saber mais ou em aderir, todas as informações estão na página www.diadedoar.org.br.

Doar é um negócio e tanto, que pode colocar o Brasil em um ranking admirável de conduta ética, sem contar o bem que pode fazer para quem precisa.

Marina Pechlivanis, sócia fundadora da Umbigo do Mundo, Mestre em Comunicação e Consumo pela ESPM.


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João Paulo Vergueiro, Diretor Executivo da ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos, administrador e mestre em administração, professor assistente na FECAP e Coordenador do Grupo de Excelência de Administração do Terceiro Setor, do Conselho Regional de Administração de São Paulo – abcr@captacao.org.

 

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