16.11

2017

Medindo e monetizando o impacto socioambiental

Postado por

 

O debate em torno da medição de impacto socioambiental ganhou importância nas últimas décadas no Brasil e no mundo. No país, a realização de eventos sobre o tema, novas publicações e a incorporação da avaliação de impacto por parte de grandes fundações e institutos são evidências deste processo. Dentre as diversas abordagens para a medição de impacto, a tradução em termos monetários, ou monetização do impacto social, se mostra cada vez mais útil para a comunicação de resultados e análise do uso de recursos financeiros para fins socioambientais.

A medição do impacto pode ser muito importante para que empresas, negócios sociais, fundações e institutos empresariais possam contabilizar seu impacto socioambiental em balanços, fomentando uma cultura de valorização da contribuição (ou não) de uma organização ou empresa para a sociedade onde está inserida. Já temos um grande número de organizações da sociedade civil que reportam de forma objetiva seu impacto, e empresas como a Holcim na Índia[1] e a British Telecom da Inglaterra[2] que desenvolveram relatórios que apresentam e monetizam o impacto que geram na sociedade.

Nesse contexto, a metodologia chamada de Retorno Social sobre o Investimento (Social Return on InvestmentSROI) ganha progressivamente mais relevância dentre as organizações sem fins lucrativos, negócios sociais, empresas e  investidores. É uma ferramenta que auxilia a avaliar aspectos intangíveis de projetos e atividades, aspectos que criam um valor que é real, mas que por ser difícil de medir e tangibilizar, muitas vezes não é avaliado.

Este instrumento emergiu no debate do investimento social na virada do século, mas apenas em 2007 ganhou evidência quando o governo do Reino Unido investiu em um projeto para desenvolver orientações e conceitos imprescindíveis para aplicação deste método. A ideia por trás desta iniciativa era fomentar o uso da ferramenta por negócios ou organizações sociais que buscam financiamento do governo e necessitam medir seu impacto social. A consolidação do SROI ocorreu em 2009 quando um consórcio liderado pela Social Value UK publicou o guia para uso da metodologia[3], reconhecido pelo Cabinet Office (Gabinete do Governo) do Reino Unido, que apoia sua utilização e disseminação no setor sem fins lucrativos e de negócios sociais.

O SROI vai além da análise “custo-benefício”. Busca contabilizar os impactos considerados  relevantes pelos diferentes grupos de interesse, os “stakeholders”. Uma vez identicado o impacto gerado, o método se propõe a monetizar este impacto social para estimar o retorno do valor investido de um determinado projeto ou negócio. Esta avaliação gera muito mais do que um número, busca retratar a história da mudança vivida pelo beneficiário ou quem sofre o impacto. Seu objetivo principal é gerar informações que apoiem decisões, trazendo dados qualitativos, quantitativos e monetários para o processo decisório. O método SROI permite um diálogo direto entre o investidor, que muitas vezes compreende uma linguagem econômica ou financeira, com o empreendedor e gestor social, que tem um olhar voltado às questões socioambientais.

A metodologia foi aplicada pela primeira vez no Brasil na avaliação do programa Valorizando uma Infância Melhor (VIM), e me trouxe a primeira certificação na metodologia no Brasil (pela Social Value UK). O VIM, desenvolvido pela Fundação Lucia e Pelerson Penido (FLUPP) no Vale do Paraíba, busca melhorar as condições de atendimento da população da primeira infância. A avaliação foi conduzida no município de Roseira, uma das cidades onde o programa foi implantado entre os anos de 2011 e 2014. O resultado foi muito positivo: para cada R$ 1 investido no programa, R$ 4 foram gerados em valor social, ou seja, 4 vezes o valor investido.

Apesar de não existirem dados, no Brasil, para comparar diretamente o coeficiente SROI do Programa VIM com outras intervenções, é possível comparar com valores apurados em programas estrangeiros semelhantes. Os valores identificados de outras avaliações variam de 1 a 7 vezes o valor investido. A avaliação do Programa VIM demonstrou como este tipo de investimento é eficiente e como pode ser valiosa a avaliação de impacto. A Fundação decidiu expandir a inciativa com base nos resultados e aprendizados do processo.

Certamente o impacto gerado por investimentos desta natureza é significativo e pode alavancar o potencial de nações ou regiões que, ao promover o desenvolvimento integral do indivíduo desde o início de sua vida, aumentam as possibilidades de aproveitamento do potencial produtivo de seus cidadãos, o que contribui de forma decisiva com o desenvolvimento do país ou região. E, um maior número de projetos avaliados pela metodologia SROI, que apresenta de forma concreta o retorno do capital investido, pode contribuir para atrair ainda mais investimento para esta área ou outras áreas estratégicas para construirmos um país mais justo e sustentável.

 

Diretora-presidente do IDIS, e foi diretora-executiva de julho de 2012 a agosto de 2014. Anterior a esta posição, foi Diretora Financeira da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal e Controller do Instituto Akatu. Trabalhou no braço de Private Equity do Grupo Votorantim e em uma das empresas investidas. Atuou no BankBoston nas áreas de asset management e M&A, e no Lloyds Bank em trade finance. Autora do livro “Fundos Patrimoniais, Criação e Gestão no Brasil”, Paula é economista formada pela FEA-USP, com MBA pela Stern School of Business – New York University, especialização em Endowment Asset Management na London Business School e Yale, e Gestão de Organizações do Terceiro Setor na FGV.

 

Compartilhe:
Share on FacebookTweet about this on Twitter