03.12

2015

Avaliação de impacto: como traduzir em números a transformação social?

Postado por

Paula Jancso Fabiani
Diretora-Presidente do IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social

Atualmente, o Brasil conta com cerca de 290.000 organizações1 sem fins lucrativos, que atuam nas mais diversas áreas como educação, saúde, meio ambiente, cultura, etc. Essas organizações, que se tornam cada vez mais relevantes na sociedade, sentem que precisam profissionalizar a gestão e os processos para conseguir demonstrar seu impacto, reforçar sua legitimidade na sociedade e aumentar sua atratividade perante investidores sociais. A crescente demanda pelos cursos da Escola Aberta do Terceiro Setor é um indicador desta tendência positiva.

Cada vez mais, os investidores esperam uma definição das transformações sociais almejadas por uma organização em sua atuação social. O que buscam mudar e como pretendem atingir essa mudança são questões que fazem parte do cotidiano de discussões das organizações sociais. E, para acompanhar o funcionamento (ou não) das estratégias implementadas, as organizações adotam instrumentos de avaliação.

Entretanto, muitas vezes o foco das avaliações está na quantidade de pessoas beneficiadas e não no impacto gerado na vida dessas pessoas. Número de beneficiários é importante mas não demonstra o impacto social efetivo gerado por uma intervenção. Para conseguirmos afirmar que um projeto é eficaz precisamos encontrar uma forma de comparar o quanto foi investido no projeto com o quanto foi obtido de transformação social sobre todos os envolvidos. Se percebemos que o ‘valor’ da transformação social sobre todos os envolvidos é maior do que o valor investido no projeto, conseguimos provar que que a operação tem um ‘saldo positivo’, e que, provavelmente, vale a pena ser realizada.

Recentemente no Brasil, a avaliação de impacto social conquistou maior destaque no Terceiro Setor. Várias são as metodologias para se avaliar o impacto de projetos e programas sociais, e um método que vem ganhando relevância no mundo é o Social Return of Investment (SROI)2 ou Retorno Social sobre Investimento. O SROI é uma metodologia que auxilia organizações a avaliar aspectos intangíveis de seus projetos e programas, isto é, aspectos que criam um valor que é real, mas que por serem difíceis de medir e tangibilizar, muitas vezes não são avaliados.

Uma vez identicados e registrados todos os impactos gerados sobre todos os envolvidos no projeto, o método se propóe a monetizar este impacto social para estimar o retorno do valor investido em um determinado projeto ou programa. É importante destacar que a monetização não é o foco, mas tão somente uma forma objetiva de expressar a mudança identificada.

A vantagem da avaliação SROI é que ela permite um diálogo mais direto do investidor, que muitas vezes compreende uma linguagem econômica ou financeira, com o empreendedor social que, naturalmente, tem um olhar voltado para as questões socioambientais.

Uma experiência brasileira
Recentemente a metodologia SROI foi aplicada pela primeira vez na avaliação de um programa brasileiro, o Programa Valorizando uma Infância Melhor (VIM), desenvolvido pela Fundação Lucia e Pelerson Penido (FLUPP)4 no Vale do Paraíba (Estado de São Paulo, Brasil). Esta avaliação foi conduzida no município de Roseira, uma das cidades que fazem parte do Programa VIM.

A avaliação SROI para o Programa VIM em Roseira resultou que para cada R$ 1 investido no programa, R$ 4 foram gerados em valor social, ou seja, 4 vezes o valor investido. Apesar de não ser possível comparar diretamente o coeficiente SROI do Programa VIM com outras intervenções já realizadas na área de desenvolvimento infantil, os valores calculados em outros programas em outras partes do mundo voltados para o desenvolvimento na primeira infância, sugerem que os resultados obtidos no Programa VIM são muito positivos. Os valores identificados em avaliações de outras iniciativas variam de 1,12 a 7 vezes o valor investido5.

Um maior número de projetos avaliados pela metodologia SROI, que apresenta de forma concreta o retorno do capital investido, pode contribuir para atrair ainda mais investimento para a área da infância ou outras áreas estratégicas para o desenvolvimento do país. Certamente o impacto gerado por investimentos desta natureza é significativo e pode alavancar o potencial de nações ou regiões que, ao promover o desenvolvimento integral do indivíduo desde o início de sua vida, aumentam as possibilidades de aproveitamento do potencial produtivo de seus cidadãos, o que contribui de forma decisiva com o desenvolvimento do país ou região. O Brasil já é um país com grandes avanços nesta temática, mas muito ainda pode ser feito e a avaliação de impacto pode ser um grande aliado na defesa desta e de outras causas prioritárias para o país.


1 IBGE FASFIL
2http://socialvalueuk.org/component/docman/cat_view/29-the-guide-to-social-return-on-investment/229-the-guide-in-english-us-edition?Itemid=3623 Para conhecer a pesquisa entrar em www.idis.org.br
4 http://flupp.org.br/projetos.htm
5 Melhuish, 2004; Van der Gaag & Tan, 1998; Kaytaz, 2004


Paula_Fabiani

 

Diretora-presidente do IDIS, e foi diretora-executiva de julho de 2012 a agosto de 2014. Anterior a esta posição, foi Diretora Financeira da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal e Controller do Instituto Akatu. Trabalhou no braço de Private Equity do Grupo Votorantim e em uma das empresas investidas. Atuou no BankBoston nas áreas de asset management e M&A, e no Lloyds Bank em trade finance. Autora do livro “Fundos Patrimoniais, Criação e Gestão no Brasil”, Paula é economista formada pela FEA-USP, com MBA pela Stern School of Business – New York University, especialização em Endowment Asset Management na London Business School e Yale, e Gestão de Organizações do Terceiro Setor na FGV.

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