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“Há uma pergunta que volta e meia me acompanha nas conversas sobre filantropia: é possível falar seriamente em cultura de doação e redução das desigualdades no Brasil sem colocar a questão racial nessa conversa?
“Não estou defendendo que toda doação precise ser destinada exclusivamente à pauta racial. A questão é outra, e talvez até mais simples: quando decidimos enfrentar as grandes desigualdades brasileiras, quem encontramos do outro lado?
“Quando falamos de educação pública, quem está majoritariamente nas escolas mais vulneráveis? Quando o assunto é pobreza e geração de renda, quem recebe os menores salários? Quando direcionamos recursos para periferias, segurança alimentar, cultura ou empregabilidade, quem compõe boa parte da população que enfrenta as maiores barreiras?
“Sempre, a população negra está lá.
“Por isso, tenho dificuldade de enxergar a equidade racial como mais uma causa disputando espaço com educação, renda, cultura, saúde ou desenvolvimento. A questão racial atravessa todas essas agendas.
“Os números tornam isso ainda mais evidente. Pretos e pardos representam 55,5% da população brasileira. Em 2024, pessoas brancas recebiam, em média, 65,9% mais pelo trabalho do que pessoas pretas ou pardas. Não estamos falando de uma desigualdade abstrata. Ela tem território, gênero, classe e, evidentemente, raça.
“Mas há algo que muda quando saímos do campo das pessoas impactadas e entramos nas salas onde se decide para onde o dinheiro vai. (…)”